sexta-feira, 25 de maio de 2012

Enganos no diálogo entre ciência e fé

Às vezes parece ter um choque entre ciência e Bíblia. Isto pode causar até conflitos no coração daqueles que conhecem a Palavra de Deus. Em alguns casos pode levar até ao abandono da fé em Cristo, substituindo-a por uma fé na ciência.

O que tem me ajudado muito neste ponto é este pequeno diagrama ao lado. São quatro livros em duas prateleiras. Na prateleira debaixo encontram-se os livros básicos, a Bíblia (B) e a natureza (N). Na prateleira de cima estão os comentários sobre a Bíblia (cB) e os comentários sobre a natureza (cN). Neste diálogo é bom lembrar que foi o Senhor mesmo que nos deu os dois livros. São livros escritos pelo mesmo Autor sobre assuntos diferentes, e não como uma primeira e uma segunda edição revisada do mesmo livro. Mas esses dois livros têm o mesmo alvo: que os mordomos da natureza cuidem bem dela e louvem ao seu Criador.

Agora, as nossas reflexões sobre algum texto sempre são como comentários, interpretações relacionadas ao texto, escrito ou ágrafo. Entretanto, quem está lendo pode se enganar sobre o significado de uma passagem, particularmente quando se trata de um trecho difícil, até mesmo quando se trata de assuntos relacionados ao seu próprio campo de estudos. Assim, comentaristas da Bíblia (cB↓) podem estar enganados na sua interpretação da Bíblia (B), e intérpretes da natureza (cN↓) podem confundir-se ao lerem os dados da natureza (N). De fato, enganos ocorrem, mais ainda quando alguém faz afirmações sobre assuntos que não pertencem à sua especialização. Assim, teólogos podem enganar-se na sua compreensão da natureza (↘), e cientistas podem iludir-se ao lerem a Bíblia (↙). Além dessas quatro áreas de possíveis equívocos (↓↘ e ↙↓), há uma quinta: a tensão entre os próprios comentaristas sobre o significado dos seus comentários (cB↔cN). Longe de pensar que por isso Derrida teria razão de relativizar o significado de praticamente qualquer discurso, temos de reconhecer que esses equívocos são fatos reais e, por isso, as nossas indagações e dúvidas também são sinceras e reais.

De fato, enganos semelhantes têm ocorrido na discussão entre estudantes da Bíblia e os da natureza. Assim, ao combaterem o cientista Galilei (↔), teólogos se enganaram tanto na leitura da Escritura Sagrada como da natureza (↓↘). Depois reconheceram que a Bíblia não era um manual sobre astronomia, mas falava a língua diária do homem comum. Por outro lado, cientistas ridicularizaram teólogos (↔) por acreditarem na existência de Belsazar registrado na Bíblia (↙↓). Depois eles descobriram que aquele último rei da Babilônia, de fato, era uma figura histórica, e que estava substituindo seu pai arqueólogo (já naquele tempo!).
Agora, apesar de acreditarmos que tanto a Bíblia como a natureza são ‘livros’ dados por Deus para que os estudássemos com submissão e afinco, temos de reconhecer que é possível haver aparentes contradições, devido as limitações dos modelos usados para a análise. Por isso devemos observar três placas nesta estrada de estudos comparativos. São como três lembretes: paciente, crescente e consciente.

Paciente
O primeiro lembrete nos admoesta a sermos pacientes por causa dos nossos próprios limites humanos. C. S. Lewis nos lembrou que há perguntas sem respostas, pois “não dá para responder perguntas tolas [como]: quantas horas cabem num quilômetro? A cor verde é quadrada ou redonda?” E acrescentou: “Talvez metade das nossas perguntas — sobre nossos grandes problemas teológicos e metafísicos — sejam deste tipo”*. As perguntas sobre a Bíblia e a natureza não são tolas, mas dentro desse assunto, há aspectos que beiram o limite do nosso entendimento. Forçar a barra do segredo não leva a nada. Por isso, sejamos pacientes. Esse limite é comum em todas as áreas de conhecimento humano, inclusive nas próprias ciências exatas. Reconhecê-lo não é sinal de fraqueza, mas de franqueza, honestidade e humildade. Na velha Roma, os juízes podiam usar seu “NL” sem constrangimento: uma placa com essas duas letras que abreviavam “Non Liquet”, isto é, o assunto não está claro (líquido). Se, depois de ouvir as testemunhas, o caso ainda não estava claro, eles erguiam as suas plaquinhas “NL” na hora da votação. Não era um atestado de ignorância, nem prova de indecisão, mas de juízo. Não há nada demais quando nós, mortais, não temos coragem de forçar uma resposta e reconhecemos que ainda precisamos de mais luz sobre grandes perguntas. É um sinal honesto de que estamos no limite do nosso conhecimento e compreensão. Precisamos ter sabedoria e coragem para, às vezes, erguer o nosso “NL”, pois o sábio conhece o tempo e o modo (Ec 8.5).

Crescente
Para algumas pessoas, essa tensão é quase insuportável. Assim mesmo, precisamos ter paciência, pois, pouco a pouco, podemos entender melhor esse assunto. Por isso, observemos também o segundo lembrete: crescente. Às vezes tínhamos de dizer aos nossos filhos: “Quando crescerem, vocês vão entender melhor”. Crescimento requer tempo. Por enquanto, cada um pode levantar a sua plaquinha. Porém, mais cedo ou mais tarde, Deus vai lhe dar a resposta, durante esta vida passageira ou depois de entrar nos tabernáculos eternos. Durante minha pereginação, o Senhor me ensinou muitas coisas preciosas. Não que ele tenha respondido todas as minhas indagações; ainda tenho uma lista de perguntas no bolso. Mas sei que, durante esta peregrinação, “Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória” (Sl 73.24). Há apenas um pequeno problema técnico: de certo a listinha ficará para trás.

Consciente
Além dos lembretes “paciente” e “crescente”, há um terceiro: consciente, que aponta para nossa consciência. Temos de reconhecer que nem sempre conseguimos convencer outros do nosso ponto de vista, por mais bíblico que seja; isso pode ocorrer mesmo quando a outra pessoa também quer se submeter à Palavra de Deus (2 Co 10.5). É possível que, ao invés de conseguir convencer você a favor da conjuntura dos ‘dois livros’, o resultado seja você honestamente considerar isto como algo ridículo. Por isso quero lhe mostrar (no próximo artigo) algo sobre a história desta posição antiga, mas não antiquada. Da minha parte, a amizade continua a mesma. Que Deus lhe abençoe, co-peregrino! Somente examinemos ambas, a Bíblia e a natureza, pois ‘Os céus proclamam a glória de Deus. E a lei do Senhor restaura a alma’ (Sl 19.1,7).

* C.S. Lewis, A Grief Observed (Londres: Faber, 1983), p. 55. Em português, "A Anatomia da Dor" (Editora Vida).

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Doutor em história e pastor emérito da Igreja Evangélica Reformada, Francisco Leonardo Schalkwijk mora na Holanda com sua esposa Margarida, com quem serviu como missionário no Brasil por quase 40 anos. É autor de Confissão de Um Peregrino, "Igreja e Estado no Brasil Holandês, 1630 - 1654" e da gramática grega Coine.

fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/enganos-no-dialogo-entre-ciencia-e-fe

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Pastor propõe campos de concentração para homossexuais

Hélio Pariz


O pastor Charles L. Worley da Igreja Batista de Providence Road em Maiden, na Carolina do Norte, provocou uma enorme polêmica nos Estados Unidos ao propor, no púlpito de sua igreja (vídeo abaixo) no último dia 13 de maio, a criação de campos de concentração com cercas eletrificadas, de cerca de 100 a 150 milhas (de 155 a 233 km) de diâmetro, reunindo em um deles todas as lésbicas, em outro todos os gays, jogar comida para eles (de avião ou helicóptero, provavelmente), até que eles morram por causas naturais e - assim - não existam mais homossexuais no país.

Por mais que seja um exagero de retórica de profundo mau gosto contra a declaração do presidente Barack Obama a favor do casamento gay, a pregação do pastor Worley revela o quanto o discurso evangélico atual se tornou refém de um debate político-ideológico sobre identidade sexual cujos excessos e grosserias em nada contribuem para que vidas - inclusive dos homossexuais - sejam transformadas pelo puro e simples evangelho de Cristo. Mais afasta do que atrai.

Além disso, o pastor Worley imagina que, uma vez confinados e exterminados todos os homossexuais do seu país (ou do mundo, quiçá) por este método que, digamos, lembra certas práticas alemãs de meados do século XX contra judeus e homossexuais (entre outros), as novas gerações não produzirão mais homossexuais. A não ser que já prevejam reaproveitar futuramente os campos de concentração que - a essa altura do campeonato - estarão vazios e sem serventia.

Se é esta a mensagem do evangelho para o século XXI, algo muito estranho está acontecendo com o cristianismo.





fonte: http://www.genizahvirtual.com/2012/05/pastor-americano-propoe-criar-campos-de.html#ixzz1vkLjLJXF

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Abolição da escravatura e as igrejas evangélicas

Hernani Francisco da Silva


Segunda-feira, 14 de maio de 2012 (ALC) - O Brasil completou, no domingo, 13 de maio, 124 anos da abolição da escravatura.

O Brasil completou, no domingo, 13 de maio, 124 anos da abolição da escravatura. Entretanto, essa abolição não apresentou nenhum projeto de inserção de negro na sociedade. O negro continua na margem da riqueza produzida pela sociedade brasileira, situação reforçada pelas nossas igrejas na cumplicidade e omissão perante a escravidão e anos de racismo no Brasil.

Os primeiros protestantes chegaram ao Brasil ainda no período da escravidão. Era um grupo composto principalmente por defensores da escravidão, omissos, e poucos abolicionistas. No geral, os protestantes não tiveram um papel relevante na abolição da escravatura. Conhecer esse passado da Igreja protestante no Brasil pode nos ajudar a entender a relação da Igreja evangélica brasileira com o negro: sua cumplicidade na escravidão, sua omissão no passado e no presente diante do racismo, e seu silêncio no púlpito sobre a temática negra.

Vejamos cinco casos da questão racial no Brasil, de repercussão nacional, que as igrejas evangélicas foram e são omissas:

No centenário da abolição da escravatura

Em 1988, ano em que se comemorava o centenário da abolição da escravidão no Brasil, as igrejas evangélicas perderam uma grande oportunidade rumo à remissão dos cem anos de omissão com relação ao povo negro. Os movimentos negros naquela ocasião buscavam uma oportunidade à reflexão, não era um momento festivo. A Igreja Católica lançava a Campanha da Fraternidade: "Ouvi o clamor deste povo", com a temática negra. Enquanto as igrejas evangélicas repetiram o que fez cem anos antes na "abolição da escravatura", mais uma vez omissa, ficando de fora, perdendo o seu testemunho cristão e o bonde da história.

Nas questões dos quilombolas

O quilombo constitui questão relevante desde os primeiros focos de resistência dos africanos ao escravismo colonial, e retorna à cena política durante a redemocratização do país. Trata-se, portanto, de uma questão importante na luta dos afrodescendentes. Nos últimos 20 anos, os descendentes de africanos organizados em associações quilombolas, em todo o território nacional, reivindicam o direito à permanência e ao reconhecimento legal de posse das terras ocupadas e cultivadas para moradia e sustento, bem como o livre exercício de suas práticas, crenças e valores considerados em sua especificidade.
Com exceção da Igreja Anglicana, que na carta "Igreja Anglicana em defesa dos Quilombolas", de abril de 2009, assinada pelo seu bispo primaz e dirigida ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a Ação de Inconstitucionalidade apresentada pelo DEM (ex-PFL), as demais igrejas continuaram totalmente omissas em relação à questão dos quilombolas.

Na questão da intolerância religiosa

Outro tema preocupante é a intolerância religiosa, sobretudo em relação a seguidores de religiões de matriz africana. Um dos casos de maior repercussão foi o que vitimou a yalorixá Gildásia dos Santos, a Mãe Gilda. Sua morte gerou indignação de lideranças de diversas religiões, processo na Justiça e, como forma de reconhecimento, a instituição do dia 21 de janeiro como Dia Municipal de Luta contra a Intolerância Religiosa – que depois ganhou também um reconhecimento nacional.

Sabemos que a intolerância religiosa pode resultar em perseguição religiosa e ambas têm sido comuns na história. A maioria dos grupos religiosos já passou por tal situação numa época ou noutra. Os próprios evangélicos eram chamados de bodes, nova seita. Bíblias eram confiscadas e queimadas na praça das cidades. Muitos tiveram suas casas incendiadas criminosamente, seus bens extraviados, suas vidas vilipendiadas. Essas mesmas igrejas hoje, omissas e até mesmo intolerantes, não podem esquecer que as igrejas evangélicas já foram perseguidas pelo ímpeto da intolerância.

Na crença da maldição do povo negro e africano

Dizem que a maldição de Cam está sendo simplesmente cumprida na medida em que os negros vivem para servir a outras raças, particularmente aos brancos. George Samuel Antoine, cônsul do Haiti no Brasil, numa entrevista veiculada pelo SBT, apontou como possível causa do terremoto certa maldição que pesa sobre o povo africano. Ao fazer tão infeliz comentário, o cônsul não sabia que ainda estava sendo filmado. Na mesma direção o tele-evangelista estadunidense Pat Robertson explicou as "desgraças" haitianas como sendo consequência de "pactos" ocorridos há 200 anos entre os haitianos e o demônio. Também o pastor e deputado federal, Marco Feliciano, disse no Twitter que "africanos descendem de ancestral amaldiçoado". O parlamentar, que é pastor e empresário, afirmou: "Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids, fome..."

Entretanto, a questão que fica é: de onde vem essa ideia de maldição dos negros? Essas ideias vieram dos missionários, sulistas racistas, que tinham a escravidão como instituída por Deus para justificá-la, baseando-se em argumentos teológicos de que o povo negro era da descendência de Cam, filho de Noé, amaldiçoado para serem escravos dos escravos. O mais triste de tudo isso é que nenhuma denominação protestante ou liderança evangélica se manifestou diante dessas declarações. Mais uma vez as igrejas foram omissas, reforçando uma doutrina diabólica aceita por muitos crentes dentro dos seus templos.

Na questão das cotas

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre cotas marca um momento histórico. A mais alta corte de Justiça do país admitiu não só que existem brasileiros tratados como cidadãos de segunda classe, mas que eles têm direito a um tratamento especial para vencer a desigualdade. As ações afirmativas ou sistema de cotas é certamente o assunto mais polêmico quando se trata do ingresso de negros no ensino superior no Brasil. O STF julgou a constitucionalidade das cotas aplicadas na Universidade de Brasília desde 2004: 20% das vagas para "negros e pardos". O partido Democrata (DEM) tinha acusado a medida de ser anticonstitucional.

Outra vez as igrejas evangélicas ficaram de fora de mais uma grande questão do povo negro, omissas e silenciosas. Agindo como na parábola do bom samaritano narrada por Jesus nos evangelhos: passando de largo diante das questões dos negros e das negras.
 
As organizações ecumênicas Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e Koinonia têm realizado diversas ações referentes às questões dos quilombolas e à intolerância religiosa, mas elas não falam pelas igrejas evangélicas. São vozes proféticas, solidárias e solitárias que são criticadas por essas igrejas por suas ações na questão racial.

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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
Edição em português: Rua Ernesto Silva, 83/301, 93042-740 - São Leopoldo - RS - Brasil
Tel. (+55) 51 3592 0416

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Organismo lembra evangélicos que negros continuam fora das esferas decisórias

Brasília, segunda-feira, 14 de maio de 2012 (ALC) - A Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil (ANNEB) encaminhou pedido a lideranças de igrejas do protestantismo histórico, pentecostal e neopentecostal para que pregadores dessas denominações apresentem no domingo, 13, homilia baseada nas negras e negros da Bíblia ou em passagens que mostram que Jesus não era preconceituoso e racista.

"Historicamente, as igrejas evangélicas no Brasil sempre se omitiram em relação às questões racial, social e de gênero, e desconhecem os anos de luta da negritude pelo reconhecimento de sua identidade no contexto do segmento evangélico", lembrou a presidenta da ANNEB, pastora e professos Waldicéia de Moraes Teixeira da Silva. 

O organismo entende que é preciso alertar as lideranças evangélicas sobre "a persistência de um sistema que ainda mantém o negro e a negra longe das esferas de decisão, reproduzindo, com frequência, nas estruturas das igrejas, a discriminação, o preconceito e o racismo ao qual afirmam se opor".

Ontem, foi lembrado no Brasil o Dia Nacional de Denúncia contra a Discriminação, o Preconceito e o Racismo. Pesquia Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2005, demonstra que das 27 unidades da Federação em 21 a população negra é majoritária. Somente em seis Estados – Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – o negro é minoritário.

A presidente da ANNEB arrola que negros e negras constituem 73% da população mais pobre do país e apresentam os piores índices de empregabilidade, os menores salário, a mais baixa formação educacional e são maioria nas favelas, cortiços e presídios.  

Fundada em 2003, a ANNEB tem por objetivo elaborar e implementar em todas as esferas do segmento evangélico do Brasil o debate da questão racial e da negritude, com ações afirmativas teológicas sob a ótica da população negra, assegurar o pleno exercício de sua cidadania e promover a justiça e a igualdade social.
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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Acompanhantes ecumênicos relatam experiências vividas na Cisjordânia

David Cela Heffel

Buenos Aires, quarta-feira, 9 de maio de 2012 (ALC) - A cada dia, das 4h às 7h, cerca de 3 mil palestinos passam pelo "Checkpoint 300", posto militar entre Belém e Jerusalém, cidades separadas por muro de concreto construído pelo Estado de Israel. Ao todo, existem 62 postos de controle em território palestino ocupado.

Há mais de cem tipos de permissão concedidos pelo Estado de Israel para palestinos que cruzam os postos de controle, desde trabalho, ir a um hospital, visitar familiares ou estudar. O argentino Lars Jacob acompanhou, por três meses, no final de 2011 e início de 2012, crianças e professores que diariamente tinham que cruzar um desses postos de controle militar israelense para estudar numa escola em Hebron. 

"Ainda que pareça mentira, é verdadeiro, também crianças em idade escolar são controladas, pois podem ser 'perigosas'", disse Lars em palestra promovida no sábado, 5, em Buenos Aires, pelo Programa Ecumênico de Acompanhamento na Palestina e Israel (Peapi), do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).

Lars, Mariana Maldonado e Gisela Cardozo foram os primeiros três acompanhantes ecumênicos argentinos que integraram o Peapi e estiveram na Cisjordânia em 2011 e 2012. Além do controle nos postos de checagem, essas alunas e alunos sofrem humilhações de parte de colonos israelenses no centro de Hebrón. A política de hostilidade em relação aos palestinos é sistemática e constante, relatou Jacob.

Mariana comentou a lida de camponeses e boias frias que a cada dia precisam cruzar as "portas agrícolas", um eufemismo para posto controlado por soldados israelenses, a fim de chegar a suas terras. Existem 66 dessas "portas agrícolas" na Cisjordânia. 

Entre Israel e a Cisjordânia há um sem-número de postos de controle. São 25 pontos parciais, 490 volantes, 436 obstáculos entre torres de controle, além das portas agrícolas e dos "checkpoints". 

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quinta-feira, 10 de maio de 2012

O que a bíblia realmente diz sobre a homossexualidade

PARTE 3: O QUE FALTOU

Eduardo Ribeiro Mundim


O casamento enquanto metáfora

A relação entre o Deus do Velho Testamento e o povo de Israel é descrito em diversos momentos através da metáfora do casamento heterossexual, e da infidelidade de Israel, frequentemente chamado de "adúltera" e infiel. O profeta Oseias se casa com uma prostituta para demonstrar aos seus conterrâneos esta realidade. Mas não há a metáfora da "amizade traída", ou da lealdade entre amantes homoafetivos para representar a relação entre Deus e Seu povo - tanto no Velho quanto no Novo Testamento. Por quê?

A homossexualidade como norma

À página 118 Daniel afirma que o relacionamento sexual entre dois homens era tido como tão comum que não despertava nenhuma atenção. Se assim for, não há uma igualdade entre as relações sexuais hetero e homossexuais. Para que fossem iguais, ambas teriam de ser normatizadas, no interesse da proteção da parte mais fraca. Seriam as relações entre o mesmo sexo tão naturais a ponto de não demandarem nenhuma regulação ética e cúltica?!

Se a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo fosse tão normal nos tempos dos Velho e Novo Testamentos, por que ela nunca é abordada de forma clara? Jesus quebrou vários esteriótipos (como a relação com os samaritanos e gentios) mas não quebrou este porque era um fato corriqueiro?! Sendo o seu número tão grande, como foi possível ter sido excluído, posto à margem, nas primeiras décadas da igreja? Se Paulo gasta muito latim na discussão contra os judaizantes e outras seitas de sua época, porque não instruiu uma só comunidade, ou um discípulo próximo a lutar contra esta descriminação?

Coerência na conclusão

Com uma facilidade incômoda,  Daniel usa meras conjecturas como fatos balizadores. No penúltimo capítulo elenca diversos possíveis relacionamentos homoafetivos entre personagens bíblicos: Jônatas e Davi, Rute e Noemi, Daniel e o eunuco chefe, o centurião e seu servo. Ainda que a hipótese de um relacionamento sexual entre eles seja atrativa, não é possível, nos textos bíblicos, levantar evidências que os tornem fatos, e não meras possibilidades. O esforço do  autor foi o de demonstrar, de forma lógica, como as Escrituras não condenam o ato homossexual, repelindo diversas construções teológicas com base na sua falta de sustentação. Mas ao final, cai no erro que condena.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O que a bíblia realmente diz sobre a homossexualidade

PARTE 2: CRÍTICAS

Eduardo Ribeiro Mundim


Moralidade e soberania divina

Até onde Daniel está disposto a deixar Deus ser deus, e estabelecer Suas normas, sejam elas quais forem? À página 39, ele parece deixar a sugestão de que a natureza, tal como a vemos e interpretamos deveria ser a fonte da moral, ou a razão humana. As experiências totalitárias, sejam de que matiz forem, demonstraram não ser, nenhuma das duas, isoladamente, fontes seguras para a felicidade humana. E, por outro lado, a razão opera sobre conceitos prontos. De onde eles viriam?

Sodoma e Gomorra

É absolutamente de acordo com o texto de Gêneses afirmar que as duas cidades não foram destruídas em função do suposto homossexualismo de seus habitantes.

É absolutamente forçado afirmar que a destruição se deu em função da falta de hospitalidade dos habitantes. O autor deixar claro, logo ao início do episódio, que a destruição era decidida, em função da iniquidade deles ter atingido proporções insuportáveis. Quais iniquidades? O texto não menciona, mas as Escrituras espalham, nas referências que Daniel selecionou, várias delas. E nenhuma delas, seja de caráter pessoal, social, econômico ou sexual é eleita como principal.

No meu texto "homossexualismo, Sodoma e Gomorra" minha visão do episódio é mais destrinchada e debate, ponto a ponto, as opiniões de Helminiak.

A abominação de Levítico

Não estou bem certo que as conclusões que ele apresentam estejam em sintonia com o texto do próprio livro de Levítico.

Se aceitarmos a tese de que o adultério era um crime contra a propriedade de alguém, porque este seria o único crime patrimonial punido com a pena capital? Todas as impurezas, no código de santidade desta seção de Levítico, de caráter sexual, são objeto de pena capital. Por quê?

Daniel conclui que a questão da pena de morte para o homem que se deitar com outro homem é mera questão religiosa, e não moral ou ética (pg 51). Mas não é possível ver com clareza seu raciocínio.

Ele marca um ponto importante ao discutir o termo "abominação", mas reler todo o texto calcado apenas neste ponto não permite desvincular religião de moral/ética. Ainda que atraente, a tentativa de separar estes conceitos não é bem sucedida.

O texto de Romanos

A análise feita pelo Daniel fica prejudicada pelo fato dele relacioná-la aos textos de Levítico, ignorando o contexto claramente condenatório do arrazoado paulino.

A tentativa de apontar aspectos estoicos na redação de Paulo fica na metade do caminho - faltaram as evidências.

E fica, nas entrelinhas, que o apóstolo usou, nesta carta, de retórica em excesso - ou, que o que escrevia não era para ser levado textualmente. Mas faltam as evidências.

Coríntios e Timóteo

Novamente a questão etimológica é apresentada, e é importante a dificuldade na tradução dos termos gregos "arsenokoitai" e "malakoi" - termos que o Dicionário de Teologia do Novo Testamento (edição de 1984) não estuda.

E de termos tão difíceis, ele faz afirmativas categóricas - o que ele mesmo levanta como pouco plausível.

Demais colocações

Realmente as Escrituras falam pouco, explicitamente, do ato sexual entre homens, e nada do que entendemos hoje como homossexualidade. Aliás, é necessário até mesmo ser mais claro quando se diz "do que entendemos hoje como homossexualidade". Nada fala sobre ato sexual entre duas mulheres.

Mas é necessário ser cuidadoso com o silêncio das Escrituras - fato que, aliás, Daniel denuncia.

O que a bíblia realmente diz sobre a homossexualidade

PARTE I: IMPRESSÕES POSITIVAS
Eduardo Ribeiro Mundim


O livro de Daniel Helminiak é de fácil leitura. Um dos objetivos do autor foi de escrever de forma acessível, mas sem perder na qualidade da argumentação, o que ele consegue. As impressões positivas do livro são:

O Autor

Não é um acadêmico preso às quatro paredes de sua sala, ou perdido nos corredores da biblioteca. Seu currículo acadêmico é respeitável, publica em diversos periódicos, mas trabalha com os homossexuais, travestis e transgêneros. Ele os conhece, sabe que são gente de carne e osso, com sonhos, aspirações, lutas, tristezas, alegrias...enfim, seres humanos iguais aos outros seres humanos. Eles têm diante de si a questão do exercício da sua sexualidade e a pergunta que todo cristão sincero faz: está de acordo com os planos do Criador? agrada a Deus Pai? sou amado por Deus Filho de todo jeito? sou santificado por Deus Espírito Santo independente do meu exercício da sexualidade?

Foi ordenado padre católico romano na juventude, tendo sido professor em diversas disciplinas teológicas. Renunciou ao sacerdócio pela impossibilidade de conciliar sua homossexualidade com as diretrizes da instituição. Sua biografia está em sua página pessoal, http://www.visionsofdaniel.net/index.htm.
 A interpretação das Escrituras
 Este é o ponto que talvez mais dificuldades traga aos cristãos, hoje, e desde a assunção do Senhor Jesus aos céus: como interpretá-las?
 Daniel chama a atenção que esta atividade não é tão simples quanto parece, que certos cuidados e pressupostos são necessários para uma leitura coerente das Escrituras. Ele é honesto nos seus pressupostos. Todo o seu trabalho é calcado na chave história e crítica. Infelizmente, ele não detalha sua chave - basicamente a contrapõe a outra, que denomina literalista. Para o leitor menos avisado, fica a ideia de que há apenas duas formas de se aproximar da bíblia - o que não é bem o caso (conferir http://en.wikipedia.org/wiki/Biblical_hermeneutics).

O método deve ser coerente, aplicável a toda Escritura, verificável por quem lê a interpretação de tal modo que o leitor perceba que o raciocínio aplicado é o mesmo para todos os textos. O respeito às condições históricas da Revelação, os contextos imediato e remoto, a busca pela intenção primitiva do autor sagrado são algumas das questões que devem estar presentes na mente de quem abre a Bíblia.

A homossexualidade não ocupa um espaço importante nas Escrituras

A julgar pelo comportamento de diversos líderes religiosos brasileiros da atualidade, a noção de que as Escrituras cristãs se ocupam primordialmente em regular o exercício da sexualidade das pessoas não seria incorreta. Contudo, Daniel consegue demonstrar, com tranquilidade, que o objetivo das Escrituras é outro. Nas minhas palavras, e não nas de Daniel, as Escrituras revelam a situação do homem frente ao Deus Criador, fornecem pequenos flashes de quem é este Deus Criador Trino, o que Ele faz para resgatar para Si mesmo a humanidade perdida e o padrão ético que espera daqueles que se voltam para Ele.

Não usando os termos que ele lança mão, sendo a homossexualidade um pecado, ela não é diferente de nenhum outro.

Uma determinada leitura da Bíblia tem conduzido pessoas ao erro

E este erro tem resultado em violência física ou moral sobre pessoas comuns, indefesas. A satanização da sexualidade não heterossexual, usando a Bíblia como base, é uma deturpação da Sua mensagem original, uma traição à mensagem do Evangelho, um uso político (no sentido pejorativo) da fé simples das pessoas simples.